Lives, música e coronavírus: oportunidade e oportunismo

Gusttavo-Lima6

 

Desde que estourou a crise sanitária por conta do coronavírus, os músicos (e digo isso com conhecimento de causa), estão sofrendo com o cancelamento dos seus trabalhos. Pessoalmente, todos os meus trabalhos foram cancelados, incluindo casamentos, festas, apresentações em bares e eventos e até mesmo aulas. Um verdadeiro prejuízo que, muito provavelmente, nenhum músico (ou até mesmo artista) estavam preparados para enfrentar, o que até me despertou um alerta de que é sempre necessário que profissionais autônomos, não somente os músicos, tenham mais de uma fonte de renda. Depender só de uma pode significar suicídio.

Logo nas primeiras semanas, acabei entrando numa ferrenha discussão em um grupo de artistas por conta de um projeto absurdo que tramitava na Câmara Municipal de São Paulo: um edital para bancar um projeto em que músicos e artistas se apresentariam das janelas, inspirado no que músicos e artistas vinham fazendo no mundo todo por conta da quarentena do coronavírus, especiamente na Itália. Por sorte, o projeto foi derrubado por um jovem advogado chamado Daniel Victor Ferreira Gallo, o qual tive a oportunidade de agradecer e parabenizar pela ação.

Aqui no Brasil, a mentalidade paternalista supera qualquer senso de razoabilidade que as pessoas poderiam ter, ainda mais num momento como esse. O artista padrão brasileiro, além de estatista, é também, na maioria das vezes, esquerdista, e acredita que o estado deve, de alguma maneira, incentivar a arte. Ainda vou destrinchar esse tema em breve em outro texto.

Por outro lado, na mesma época, alguns colegas músicos começaram a fazer lives em várias plataformas, como Instagram e Facebook, com o objetivo de levantar algum dinheiro sem sair de casa. Até mesmo eu fiz uma live com um amigo, que foi bem legal mas que não tinha o intuito de arrecadar nenhuma quantia. Essa prática despertou a atenção de grandes artistas, especialmente os do mainstream do sertanejo, que viram a oportunidade de, além de arrecadar suprimentos e doações, construir uma imagem positiva durante a quarentena. A primeira grande live transmitida foi a do cantor Gusttavo Lima. Com aproximadamente 5 horas de duração e quebrando todos os recordes de audiência, o cantor arrecadou alimentos, insumos hospitalares e mais de 100 mil reais que foram destinados a instituições de caridade.

Aí virou festa. Cantores do universo do sertanejo, como Jorge e Mateus, Marília Mendonça, Marcos e Belluti, Bruno e Marrone e muitos outros, arrebataram centenas milhares de fãs pela internet em lives muito bem produzidas, com ótima qualidade de vídeo e áudio e arrecadando uma enorme quantidade de doações. Eu não sou um grande fã de música sertaneja e confesso que não assisti a nenhuma live do gênero. Mas é muito gratificante ver que, por mais que haja um interesse no buzz e na imagem desses artistas, que tratam suas carreiras como um negócio, existe uma parcela de humanidade no que estão fazendo e é muito bonito ver que estão usando o poder de influência que tem para fazer o bem. O coronavírus continua a assustar a humanidade e são necessárias mais iniciativas como essas.

Mas a reflexão que eu gostaria de deixar é ainda outra. Artistas como esses, que são extremamente bem-sucedidos hoje em dia e ocupam o mainstream da classe artística, não são, na maioria das vezes, oriundos da elite artística, muito menos da elite econômica. São pessoas que, na grande maioria dos casos, tiveram uma dura tragetória até atingir o status atual. Nenhum deles precisou de um edital que retirasse o dinheiro das pessoas à força para bancar as suas carreiras. Muito pelo contrário: estão usando do sucesso que obtiveram através do seu esforço para ajudar as pessoas.

Em compensação, uma vanguarda, uma elite artística que, inclusive, fala muito mal dos “sertanejos” (dor de cotovelo pelo sucesso e dinheiro que eles não tem), adoram pegar um edital aqui, outro ali, Rouanet, Proac… e até agora, não vi nenhum desses artistas mover uma palha sequer para ajudar alguém. Esses mesmos artistas que são politizadíssimos, que idolatram ditadores, torturadores e os maiores genocidas da história da humanidade.

Esses mesmos artistas juram que defendem os pobres. Poderiam, então, começar por não tirar o dinheiro dos pobres para financiar os seus projetos.