Mineiraço e os legados brasileiros

Lágrimas. A torcida abandona as arquibancadas antes do final da partida. Nos lares, silêncio e perplexidade. Os fogos, que seriam pra agora, vão ter que ficar para o ano novo. É… a recente derrota da seleção brasileira de futebol para a seleção da Alemanha por 1 x 7, na Copa do Mundo de 2014, realizada pela FIFA no Brasil, abalou profundamente os brasileiros.

Acabado o jogo, a primeira a interferir no assunto é a imprensa. Os narradores, comentaristas e outros tipos de especialistas tentam fazer o que sempre fazem: achar um culpado. Culpa-se a equipe por um apagão após o primeiro gol, a inversão de posicionamento na zaga, a irresponsabilidade na armação do esquema tático, que não procurou neutralizar jogadas pelo meio-campo como fizeram todas os outros adversários dos alemães, as apagadas atuações do atacante Fred, as ausências de Neymar e Thiago Silva… sobra culpa para todo lado. Na internet, houve quem dissesse que a presidente Dilma Rousseff esquecera de pagar os últimos boletos da conta da Copa comprada.

O Facebook, que antes era palco de grande otimismo, foi transmutado num ambiente de críticas ao que antes preferiam creditar fé e fingir que era bom: o futebol da seleção brasileira. A decepção foi clara. Até foto de gente queimando a bandeira nacional pode ser vista timelines afora. É fato: a comoção em torno do assunto foi e ainda está sendo grandiosa.

Tudo isso que observo é para tentar embasar uma visão nada empírica que tenho sobre a sociedade brasileira. Apesar da falta de dados concretos que me ajudem a apontar a direção que aponto, tudo o que aconteceu hoje em relação à Copa, todo o sentimento causado, está muito fresco e vai ajudar no meu argumento. Toda essa comoção gerada em torno do futebol é a prova de que o brasileiro, indiscriminadamente, se sente dono do legado futebolístico do país.

Por aqui não falta gente que entenda (ou pensa que entende), critique, opine, se envolva, se emocione, se decepcione, deposite sua fé e seu dinheiro nos produtos e serviços que fazem a economia do esporte girar. Sinais de uma grande paixão nacional.

Todo esse envolvimento com o legado futebolístico me faz perceber que não existe o mesmo sentimento para com todos os outros legados que o Brasil nos deixou. Não há o mesmo envolvimento e paixão com as questões políticas, nem com as questões culturais, nem com a educação, muito menos com as pessoas que formam esta nação. O povo se odeia e se mata por motivos menos importantes do que a união de um povo, de um país. Briga de torcida, por exemplo, é um desses motivos. Mais uma prova do “futebol acima de tudo”.

E este é o problema primeiro na ordem de todos os problemas do nosso país: nós não nos sentimos donos do Brasil.

Se você fosse dono de um hotel ou pousada, jamais deixaria que um hóspede viesse, usasse o seu salão de festas pra promover um evento por um mês inteiro, lucrasse muito com isso e saísse sem nem pagar a hospedagem, não é verdade? Pois é. A FIFA fez isso no SEU país e você simplesmente não ligou pra isso. Os seus olhos estavam muito ocupados, torcendo pela continuidade próspera daquilo que você se sente dono: o legado futebolístico. Pouco importa se de tudo o que a FIFA lucrou e ainda vai lucrar com seu evento, absolutamente nada será revertido em benefício de infra-estrutura e serviços públicos do SEU país, porque você não se sente dono dele.

A solução para os problemas do Brasil estão muito claras. Precisamos nos sentir donos do nosso país. Os donos não são os políticos, os empresários, muito menos a FIFA. Os donos somos você que me lê e eu também. Acabar com as barreiras que existem entre o nosso sentimento atual até nos sentirmos donos do Brasil significa nos tornarmos um grande país, pois cada barreira derrubada é um problema derrotado e um degrau a mais na escala da paixão pela nossa terra.

Precisamos entender, criticar, opinar, nos envolver, nos emocionar, nos decepcionar, depositar nossa fé e nosso dinheiro em coisas que façam nosso país cada vez mais protagonista. Precisamos vestir e hastear a bandeira do nosso país todos os dias, não só na Copa do Mundo pra postar foto no Facebook. O futebol não precisa ser tudo. Pode ser um dos nossos grandes orgulhos, um dos nossos grandes legados.

Que esse 1 x 7 tenha sido uma bomba atômica no nosso statu quo para erguermos uma nação maior do que nunca. O Brasil está carente, precisando de gente apaixonada!

14 thoughts on “Mineiraço e os legados brasileiros

  1. O Brasil estava necessitando de um valente puxão de orelha para não ser tão superficial.

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  2. Espero que agora caia a ficha da galera, estava todo mundo vivendo de Copa e se esquecendo do resto.

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  3. Espero que a lição de ontem seja lembrada em Outubro. Talvez o brasileiro pare de se preocupar com futebol e comece a se preocupar com o país.

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  4. Oi,
    Estou retribuindo a visita que fez ao meu blog. Algumas ideias em comum entre os nossos textos, mas no geral, gostei da maneira como abordou o tema. Grande abraço e obrigada pela visita.

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  5. Olá,

    Você passou no O Rodapé (www.orodape.com) e deixou o link para seu texto. Achei interessante, concordo que o brasileiro não se dedica a outras questões do país como o futebol, mas não vejo possibilidades disto no momento, por isso, prefiro deter-me sobre como o brasileiro é afetado diretamente pelo futebol e ele é um organizador social em nosso país.

    Publicamos também um texto sobre o Mineiraço, se der, passe lá:
    http://orodape.com/2014/07/10/depois-do-atropelamento/

    Abraço,

    Renan – Equipe O Rodapé

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    1. Renan, muito obrigado por nos ler e por deixar aqui a sua opinião. Ela é muito valiosa pra nós aqui do IU e pra enriquecer o debate sobre o tema.

      Li o texto do Pablo Cardoso lá na página de vocês. Muito bom o texto e a opinião que ele defende é muito parecida com a nossa. A única diferença é que ele é pessimista em relação às mudanças, enquanto que o meu texto é embasado, principalmente, no otimismo. Cá entre nós, se toda essa energia fosse empregada no país e suas causas como um todo, seríamos o país mais próspero e feliz do mundo. E mais apaixonado!

      Grande abraço!

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