Uma outra chance

11-segundachance

Sr. Mariano, 68 anos, casado e mecânico. Natural de Quixeramobim no Ceará. Sorriso sempre disponível e uma sutileza ímpar, daquelas que a cidade grande não conseguiu converter.

Papeando enquanto ele mexe no carro, descobri um pouco de sua vida e fiquei pensando como ela não é fácil para a maioria das pessoas.

Ele veio para São Paulo aos 18 anos, fugindo da miséria e deixando uma esposa grávida na cidade, com a promessa de que ganharia dinheiro por aqui e a traria em seguida.

Começou trabalhar numa mecânica, era assistente. Ganhava pouco, mas era muito mais que sua vida na roça. Além do trabalho oficial, fazia bicos e em poucos meses era bem requisitado, já tinha deixado de ser assistente e era uma espécie de mecânico “júnior” na oficina. Sr. Alberto, o proprietário, gostava muito do rapaz e o ajudou na compra de um terreno ao lado da oficina. O terreno era dele, que disse que o funcionário poderia ir pagando, descontando do salário, mas só depois que ele construísse sua casa e trouxesse sua esposa e filha (que ele nem chegou conhecer e agora já estava com 10 meses de nascida). Casa humilde, dois “combodu” e um banheiro no lado de fora, mas já dava para estar com sua família. Iria passar o aniversário de um ano com sua filha.

Passagens compradas, esposa e filha vindo para São Paulo e um acidente em Minas Gerais tirou a vida das duas. O mundo de Mariano caiu, com menos de 20 anos parecia que tudo desabara em sua frente. Ele viu as coisas que mais amava irem-se. O pouco dinheiro fez com que as duas fossem enterradas em Minas Gerais. Ele não pode se despedir da esposa, que agora tinha 17 anos e de sua filha, que nem chegou a conhecer.

Com as duas afastadas, ele caiu na bebida, perdeu a vontade de viver e relaxou no trabalho. Ele se achou culpado da morte das duas, afinal, se ele não tivesse vindo para cá, elas não teriam morrido. O Sr. Alberto ficou triste, mas procurava ajudá-lo. Tudo estava de mal a pior, até 1968, quando a mãe do Sr. Alberto ficou doente e ele teria que viajar para Minas Gerais para cuidar dela. Ele chamou Mariano e disse: “Filho, preciso de você agora. Nunca te pedi nada e sempre te ajudei, peço que me ajude nessa hora. Se você abandonar nosso trabalho, quando eu voltar estaremos os dois perdidos” e assim saiu, sem resposta alguma. Esse foi o choque de Mariano, que largou a bebida nesse dia e começou trabalhar certo. A dor era imensa, mas ele resolveu seguir.

Sr. Alberto retornou um mês depois. Tinha perdido alguns clientes, mas a oficina ainda existia e Mariano estava numa aparência melhor. Descobrira então que a mãe de Sr. Alberto havia falecido e ele também chegou triste, mas com uma proposta. Montarem uma nova oficina, com o nome “Marias do Céu” em homenagem a dona Maria de Lurdes (mãe do Sr. Alberto), Maria Clara e Maria de Fátima (esposa e filha de Mariano, respectivamente), dando 50% para cada.

Mariano disse que não tinha dinheiro para isso, mas mesmo assim, Sr. Alberto disse que ele poderia pagar assim que terminasse de pagar o terreno.

Após isso, 20 anos ainda se passaram, até que o seu “pai”, Sr. Alberto, faleceu, trabalhando até três dias antes da morte. Ele sempre o inspirou. Poucos dias antes de passar mal disse que considerava o Sr. Mariano como um filho e só então ele descobriu que Sr. Alberto também perdeu um filho, no parto da esposa, que também faleceu. Jovem, tinha vindo para São Paulo ganhar a vida, se casou aqui, com uma moça paulista e prendada, foi feliz por um ano e meio, perdeu sua família, os familiares da esposa o culpavam pela morte e todos viraram as costas para ele. Ele não teve uma mão amiga quando precisou e na verdade, era só uma mão que ele precisava. Essa mão que ele não teve, foi a mesma mão que ele ofereceu para Mariano, que só então começou entender sua vida.

Sr. Alberto apagou esposa e filho da memória, nunca mais se casou e morreu sem deixar herdeiros. A única pessoa em seu leito de morte era Mariano. No velório alguns amigos de bar e clientes, lá se ia a única pessoa que Mariano confiava. A vida pregando peças.

Era uma tarde de domingo, Mariano comprou um maço de cigarro, bebeu mais uma vez e foi para casa. Pensou em voltar para sua cidade, pensou em se matar, pensou em largar tudo, mas a dor e o cansaço o venceu e ele acabou adormecendo.

Na segunda ele acordou, não abriu a oficina, pensava no que fazer. Fumou o último cigarro, de um maço que era do Sr. Alberto, amassou a embalagem de Bellmont e jogou num canto qualquer. Levantou, pegou ônibus e foi parar no centro de São Paulo. Sem rumo, lá estava ele na Rua dos Andradas, andando. Viu prostituas menores, gente no lixo, pessoas perdidas e tanta gente em situações muito piores. Percebeu que não tinha dinheiro no bolso, alguns trocados e a embalagem de cigarro amassada, que ele achava que tinha jogado na casa. Dentro, um bilhete sem data, velho, escrito com a letra de Sr. Alberto “eu respondo por minha vida, sempre serei mais forte”. Provavelmente escrita em algum período de sua vida e deve ter acompanhado diversos maços em sua vida.

Parou numa birosca da cidade, comeu um salgado, tomou um café, comprou outro maço de cigarro e voltou para a oficina.

Demorou uns cinco dias para abrir de novo, mas abriu renovado, com novo nome, foto do Sr. Alberto e até hoje funciona no mesmo lugar. Na parede um quadro com um maço de cigarro amassado, outro com o bilhete original e a frase “gênio não precisa de diploma” e uma placa de mármore com a mesma frase do bilhete.

As “Marias do Céu” agora tinham a companhia do Sr. Alberto em um pequeno altar de lembranças e “Outra Chance” era o lema da oficina.

Hoje o Sr. Mariano já está um pouco mais velho, tem uma esposa e adotou três filhos já grandes, que não conseguiam pais por causa da idade. Ajuda um orfanato e faz diversas campanhas e oficinas gratuitas para pessoas de baixa renda.

É um exemplo de vida. Saí com o carro arrumado (ele diz que ninguém volta pelo mesmo problema e os novos são indicação pelo bom trabalho) e extremamente rico com a história que ele contou enquanto trabalhava. Não obstante, ele solta. Faz uns 25 anos que isso deixou de ser trabalho para ser minha diversão.

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