Quantas crianças ainda morrerão antes de nossa hipocrisia expirar?

Na semana passada tivemos uma imagem de uma criança morta na praia e essa imagem comoveu milhões de pessoas, inclusive a mim. Choveram montagens e comentários, felizmente não presenciei humor negro nesse caso, acho que a porrada foi tão forte que até os piadistas não tiveram estômago para digerir qualquer que fosse a criação.

Odiei a exposição do sofrimento, talvez tenha sido a imagem mais forte que muitos viram. Não a imagem em si, mas imaginar qualquer coisa se afogando é deveras triste. Não é a morte que incomoda, mas o decorrer dela, suas circunstâncias. Podia ser minha filha, minha mãe, meus irmãos, minha esposa, algum amigo, enfim, poderia ser qualquer um ali. Aquela foto fez eu me sentir mal.

Choveram comentários de apoio ao povo sírio, que vive uma guerra civil que já dura mais de quatro anos e soma mais de 240 mil mortes (fora os não declarados) no total. Não importa que lado está certo, quem está morrendo é o povo, são os pobres, são as crianças, são as mulheres, os adolescentes, os pais de família e todas aquelas pessoas que poderiam ser seus vizinhos, seus parentes ou aquela pessoa que você nutre uma paixão.

Minha melhor definição de guerra é “um jogo onde alguns movem as peças e são lembrados na história e milhares morrem sem nunca serem citados”.

Muitas dessas pessoas se comoveram, fiquei contente com essa humanização, mas ao mesmo tempo, boa parte dessas pessoas são aquelas que são contra a vinda de haitianos para o Brasil, que dizem que eles vieram para tomar nossos empregos, nossas casas, nossas mulheres, enfim, um país que foi devastado por força da natureza e está cheio de pessoas de bem que querem se reerguer e assim ajudar suas famílias, mas que não são bem vistos por muitas pessoas que se comoveram com o caso da criança síria.

Não obstante, li algumas matérias que me deixaram orgulhosos dos seres humanos do planeta onde moro: “Brasil está de braços abertos para receber vítimas de conflitos, incluindo da Síria”; “Haddad: São Paulo recebe sírios com orgulho”; “Venezuela se oferece para receber 20 mil refugiados sírios”; “Alemanha vai receber 500 mil refugiados, ou até mais, diz o vice chanceler Sigmar Gabriel”; “Austríacos recepcionam refugiados sírios com roupas e sapatos”, são algumas das belas coisas postadas, porém, descendo um pouco mais para os comentários de leitores, li cada absurdo que envergonha qualquer um. O pior disso tudo é que numa pesquisa qualquer em redes sociais, você consegue os perfis das figuras e nota que eles estão “indignados” com a morte de uma criança, mas são contra o país e a cidade onde vivem recebe-los. São os mesmos que são contra os programas de incentivo social, da imigração de haitianos para o país, são os mesmos que pregam o ódio e a intolerância aos homossexuais, são aqueles que defendem que apenas sua religião é a certa e me faz pensar que para cada coisa bonita que te faz sorrir, haverá 10 coisas para te fazer chorar. O ser humano não pode ser humano com ações desse tipo. A hipocrisia é servida em uma baixela de prata, com bordas de ouro e cálices de cristal. O Ser humano perdeu sua humanidade e essa falta de caráter é um dos principais ingredientes para termos situações como presenciamos na Síria, na Palestina, na Líbia, no Paraguai, na Alemanha e em tantos países que tiveram guerras, inclusive o Brasil, o qual espero que não precise mais passar por isso, mas um dia, quem sabe, ao invés de sermos espectadores seremos protagonistas de um cenário de desolação e talvez aquela criança morta na praia possa ser um descendente seu, tentado refúgio num país europeu ou até aqui perto mesmo, nas Ilhas Malvinas.

N.A.: Esse texto não tem fotos, a dor não precisa ser vista quando sabemos que ela existe.

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One thought on “Quantas crianças ainda morrerão antes de nossa hipocrisia expirar?

  1. “Encheram a terra de fronteiras, carregaram o céu de bandeiras, mas só há duas nações – a dos vivos e dos mortos.”

    (Mia Couto em “Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra”)

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