Caiu na net! Pais e filhos

Whatsapp é foda. Se não configuramos o aplicativo para evitar os downloads involuntários, acabamos lotando a memória do celular com um monte de tralhas, sem falar o trabalho que dá pra se livrar de tudo depois.

Dentre as coisas recebidas, com certeza uma boa parcela é de pornografia. Tem ainda aqueles caras que acumulam “caminhões” de fotos e vídeos pra mandar tudo de uma só vez. Já cheguei a receber listas enormes, de travar o celular antes de achar o fim (ou o começo).

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No meio da pornografia, é comum receber casos de “caiu na net”, como fotos que supostamente seriam da filha do humorista Leandro Hassum, que recebi semanas atrás. Ela teria posado nua para que o seu namorado a fotografasse. O cara acabou mostrando pra alguém, que mostrou pra alguém, que mostrou pra alguém… resultado: chegou até mim! E não vieram sozinhas. Vieram com prints de notícias, dizendo que a garota teria sido expulsa do colégio onde estudava, no Rio de Janeiro. Para evitar consequências mais graves – e até para zelar pela imagem de Hassum – a história acabou aí. Alguma noticia aqui ou acolá, nada além. Mas nem sempre é assim.

Além da filha do humorista, existem casos de pessoas não famosas que passam por esse constrangimento, fruto da irresponsabilidade de quem se deixa ser filmado ou fotografado e de quem está por trás das câmeras.

São muitos os casos que recebemos e, se já chegou até nós, significa que já está rodando a rede inteira e não há muito o que fazer. Mas, sinceramente, tenho me sentido incomodado com certos casos em que os pais fazem vídeos “corrigindo” filhos, que na verdade foram vítimas dessa prática cada vez mais comum.

Ninguém quer passar por um constrangimento desses. Acho que todo mundo se arrepende do que fez no fim das contas, a menos que tenha sido de propósito, o que não descarto, afinal, tem muita gente querendo se tornar celebridade da noite pro dia. Mas, protegidos por um senso comum – e pra aparecer também, convenhamos – esses pais, tentando compensar a vergonha que passaram, gravam vídeos batendo nos filhos e os disseminam pelas redes sociais, criando uma cadeia de constrangimentos, que, além de não solucionar o problema, cria uma “cultura de correção”, onde cada vez mais menores são sexualmente expostos e mais pais adotam medidas como essas.

Violência e repressão nunca resolveram nossos problemas mas, infelizmente, vivemos numa sociedade que acha que bandido bom é bandido morto e não se permite pensar sobre como se originou um problema para, a partir daí, combater as causas e não as consequências. As pessoas preferem dar as “soluções mais práticas”. É muito mais fácil matar do que reformar. É mais fácil bater do que educar. É muito mais fácil remediar do que prevenir e muitas vezes só o remédio não funciona. É preciso uma mudança de hábitos, uma reeducação, coisas que a agressão não é capaz de ensinar.

Outra característica nociva desses vídeos é que nunca é um homem apanhando dos pais. É sempre uma menina. Até hoje, não recebi nenhum vídeo de um pai ou mãe batendo num filho, sinal de que julgam, com certeza, que há uma barreira moral maior para as mulheres do que para os homens. O que estão viralizando pela rede não é simplesmente um vídeo de castigo aos filhos, é violência barata e machismo.

Portanto, se você receber um vídeo desses, não repasse. Você pode estar tanto prejudicando alguém quanto sendo vítima, porque a pessoa do vídeo pode estar querendo se promover às suas custas. Não promova a violência; não promova o machismo.

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Do Betume da Judeia à selfie – 10 imagens históricas do mundo da fotografia

Para quem não sabe, hoje, dia 19 de agosto, é comemorado o Dia mundial da fotografia. Aqui no Interferência Urbana, a 8ª arte tem grande importância. A categoria Cidade Congelada é dedicada exclusivamente à ela!

Pensando nessa importância, resolvemos dedicar um post à esta data, homenageando a história da fotografia desde lá do início até os dias de hoje. Confira o nosso ranking de 10 imagens históricas do mundo da fotografia, começando pela…

1 – Primeira foto da história (1826)

primeira foto da história

A primeira foto da história demorou 8 horas para ficar pronta e foi produzida pelo francês Joseph Nicéphore Niépce numa placa de estanho coberta com um derivado de petróleo fotossensível chamado Betume da Judeia. Um verdadeiro borrão, mas conseguimos identificar algumas construções ao longo de um grande terreno. Começava aí a história da fotografia!

2 – Trabalhadores nas alturas (1932)

Construção do Empire States

Para quem tem medo até de subir na escada para trocar a lâmpada do banheiro, esta foto, certamente, é de tirar o fôlego! Um grupo de trabalhadores almoça tranquilamente numa viga a mais de 250 metros do chão sem qualquer equipamento de segurança. Muitos associam esta foto à construção do Empire States Building, que foi o maior arranha-céu do mundo por um bom tempo no século passado. Na verdade, à essa época, o Empire States já tinha sido construído havia um ano. A foto é também na construção de um prédio em Nova York, mas é do GE Building (ou RCA Building) no Rockefeller Center, em Manhattan.

Alguns questionam o fato dessa foto, que tem mais de 80 anos, ser alguma espécie de montagem, o que nunca foi confirmado. Outra curiosidade é que, na verdade, a foto foi encenada e fazia parte de uma jogada de marketing produzida para promover a construção do edifício.

3 – Dirigível Hindenburg (1937)

Hindenburg_burning

Construído pela empresa Luftschiffbau-Zeppelin GmbH, o LZ 129 Hindenburg levava 96 passageiros da Alemanha para Nova Jersey, nos Estados Unidos, e acabou caindo devido a um incêndio enquanto era manobrado para realizar a pousagem. 36 pessoas morreram e a história dos dirigíveis na aviação comercial terminava ali.

A banda britânica de rock Led Zeppelin usou esta foto para ilustrar a capa do seu primeiro álbum, intitulado Led Zeppelin, lançado no ano de 1969. Inclusive, o nome da banda ganhou a palavra “Zeppelin” justamente por causa do dirigível Hindeburg, que também era conhecido como Zeppelin.

4 – V-J Day in Times Square (1945)

fim da segunda guerra

A Segunda Guerra Mundial acabava e o estado de espírito do estadunidense era de grande euforia. Alfred Eisenstaedt, dono do registro que completou recentemente 70 anos, conta que o marinheiro da foto saiu beijando todas as mulheres que viu pela frente até chegar na enfermeira, quando deu o beijo que rendeu o clique histórico. E um senhor tapa na cara após o momento da foto!

5 – Autoimolação do Monge Budista (1963)

monge queimando vietnã

O fotógrafo Malcolm Browne ganhou um Prémio Pulitzer por este trabalho fotográfico, feito em Saigon, Vientnã. O Monge Thich Quang Đức queimou até a morte como forma de protesto à política religiosa do governo Ngo Dinh Diem. Seu ato foi repetido depois por outros monges. O monge Thich Quang Đức permaneceu imóvel em sua meditação, sem nem sequer emitir qualquer tipo de expressão ou ruído por estar sendo imolado. É possível até ver esta histórica cena em vídeos no YouTube. Até para ver um vídeo desse, é preciso um pouco do “sangue frio” do monge. Fala sério!

6 – Guerra do Vietnã (1972)

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Esta talvez seja a foto mais famosa do mundo. Dificilmente alguém não conhece o click do fotógrafo Nick Ut, que também ganhou um Prémio Pulitzer por este trabalho, assim como Malcolm Browne. A garotinha Phan Thị Kim Phúc, de 9 anos de idade, fugia de um ataque de napalm feito à aldeia aonde morava por aviões sul-vietnamitas. O fotógrafo prestou socorro à vítima, que sofreu sérias queimaduras. Os médicos disseram que as chances de Kim Phúc sobreviver eram muito raras. Entretanto, contrariando as expectativas médicas, a garota sobreviveu, se formou em medicina e vive hoje no Canadá. Além disso, Kim Phúc criou e mantém até hoje uma Fundação que leva auxílio médico e psicológico para crianças que sofrem com situações de guerra. Um final realmente muito feliz para uma pessoa que praticamente nasceu de novo!

7 – John e Yoko para cover da Rolling Stone (1980)

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Tirada em dezembro de 1980 pela fotógrafa Annie Leibovitz, esta é, sem dúvidas, uma das fotos mais icônicas da história da cultura pop, feita para capa da revista Rolling Stone. Conta-se que foram apenas dois cliques. A única diferença de uma foto para a outra é que em uma John está olhando para a câmera. A outra é justamente a foto acima, escolhida para a capa. Mas essa não é a única curiosidade sobre esta foto. Estas foram as últimas fotografias do ex-Beatles, que morreria algumas horas depois, baleado por Mark David Chapman, contribuindo, sem sombra de dúvidas, para que esta edição da Rolling Stone fosse uma das mais bem-sucedidas da história da revista.

Só como um adicional, eu não tenho essa Rolling Stone, mas tenho um jornal que meu pai guarda desta época, que anuncia na capa a morte de John Lennon. A chamada é sencional!

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8 – O Rebelde Desconhecido (1989)

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É até irônico ver tanques de guerra num lugar que leva no nome a “responsabilidade” da paz celeste. O Rebelde Desconhecido (como ficou conhecido, também ironicamente), se coloca no trajeto por onde iria passar uma fileira de enormes tanques, na Praça da Paz Celestial em Pequim, na China, um dia após o governo chinês reprimir violentamente protestos em Tiananmen. O Rebelde Desconhecido ficou tão popular que foi até considerado como uma das personalidades mais influentes do século XXI pela revista Times.

Até hoje, não se sabe ao certo quem era este homem, muito menos qual é o seu paradeiro. Existem várias informações não confirmadas sobre o Rebelde Desconhecido, como por exemplo, a de que ele se chamaria Wang Weilin e teria 19 anos na data da foto. Alguns dizem que ele foi morto poucos meses após o ocorrido. Outros, que estaria ainda vivo, se escondendo. A verdade é que até hoje tudo isso é um grande mistério.

Esta cena foi capturada por mais de um fotógrafo, mas as fotos de Jeff Widener, fotógrafo estadunidense da Associated Press, ganharam grande repercussão rapidamente e se tornaram as mais famosas fotos do Rebelde Desconhecido.

9. A foto mais cara do mundo (2014)

preto e branco

Tirada pelo Australiano Peter Lik no interior do cânion Antelope, no Arizona, Estados Unidos, esta foto foi vendida por incríveis US$ 6,5 milhões (mais de R$ 17 milhões), para um colecionador que não foi identificado. O nome da obra é Phantom, uma alusão à poeira iluminada que sobe do chão, com formas que lembram as de um ser humano. Dá até para o Australiano Peter Lik tomar um sorvete com a grana da venda, não acham?

10. A foto mais curtida do Instagram (2015)

Kendal Jenner

Enquanto a primeira foto da história demorou 8 horas para ser produzida, hoje, dezenas de milhares de fotos são colocadas nas redes sociais em questões de segundos. Só para se ter uma ideia, são postadas cerca de 350 milhões de fotos no Facebook todos os dias e é nesse cenário que a modelo Kendall Jenner se destacou ao quebrar o recorde de curtidas no Instagram que pertencia à sua irmã, a socialite Kim Kardashian. Foram mais de 2,6 milhões de curtidas para o penteado que forma vários corações, registrado numa espécie de selfie.

Esta foi uma singela homenagem do Interferência Urbana aos amantes da fotografia, sejam eles simples apreciadores ou profissionais do ramo. Todos nós hoje temos condições de entrar em contato com esse universo, graças ao acesso à tecnologia que a cada dia vai se democratizando mais, permitindo-nos aventurar tanto pela história da fotografia quanto conhecer a própria parte técnica. Por isso, para finalizar, deixo aqui uma dica de um site de uma fotógrafa brasileira, que pode servir tanto para fotógrafos iniciantes quanto para os mais experientes, quando pintar alguma dúvida: o Dicas de fotografia. Só clicar e conferir!

Agora é só pegar sua câmera e entrar para a história!

Tal qual o vento

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foto por: freepik

Eu prefiro ser tal qual o vento
E soprar por aí
no verão, no relento,
no olho do furacão

espalhar as sementes
que vão germinar
Soprar pra bem longe, viajar
E aprender coisas sobre o mar

corais, anéis de atóis
varrer o convés,
estufar as velas
apontar aos faróis

jogar tudo pro ar
tocar a pele,
refrescar dos sóis
das 10, das 11, do meio-dia
na estação do inverno
vir com a frente fria

passar por entre dedos
cabelos
fios e florestas
edifícios

Lufar implacável
pra dar e tirar alento
encher o pulmão de alívio
levar o sofrimento

Trazer o cheiro de jasmim
e o cheiro do almoço
dar movimento nos tecidos de um esboço
e no vestido daquela moça angelical
a atmosfera é o limite espacial

Sim, eu prefiro ser tal qual o vento
e me dispersar
Do que procurar sustento que não para em pé
tropeçar
em mais uma noite de filosofia

A Vaga

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foto:littlevisuals

Estacionei no lado certo
muito tempo eu fiquei
ninguém me viu na vaga
e a vida era vazia

Lá no lado errado
receberam atenção
Cochichavam
e apontavam à revelia

O guarda escrevia bilhetes
mas nunca apertou-me a mão em cumprimento
Nem um mísero bom dia

Decidí,
já que nunca recebi os parabéns
mudar de vaga
Ver se o errado me preenchia

Apontavam, cochichavam
Só queriam a razão
E a solução, quem sabe?
Ninguém perseguia

O bilhete que o guarda escreveu
deu prejuízo
Ainda fiquei sem parabéns
e sem bom dia

Foi aí que percebi
qualquer vaga faria sentir-me vago
O problema não é lado

Demorei a perceber
Por isso, não entendia
O problema era ficar estacionado

Agora eu é que me guardo
Meus dias sempre são bons
e o lado, desde então, é sempre o meu

A razão, não quero mais
Atenção, só na estrada e no painel
pra durar mais o meu pneu

Dia Mundial do Rock!

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Dia Mundial do Rock

Hoje, dia 13 de Julho, é o dia mundial de um dos ritmos musicais mais ricos e populares de todos os tempos. Hoje é Dia Mundial do Rock!

Para quem gosta de Rock, como eu, todo dia é dia de ouvir Rock’n Roll, seja no conforto de casa, no seu fone de ouvido à caminho do trabalho ou faculdade… sempre existe um disco apropriado para qualquer momento, dada a variedade de estilos e linguagens dentro desse gigantesco universo do Rock.

Apesar de gigante, o Rock, nos últimos 20 anos, vem perdendo espaço no mainstream, tanto no mercado nacional quanto no mercado global por vários motivos, como a falta de novas ondas de Rock – a última onda relevante foi a onda Emo, há 10 anos atrás – uma estética marcada e um público que dificulta a inovação dessa estética – o Emo sofreu grande preconceito da própria comunidade rockeira – mas, acima de tudo, vejo a queda do Rock como uma questão de conveniência. No Funk Carioca e na música eletrônica, tendências que ganharam grande mercado nos últimos tempos, é mais fácil produzir uma música e não é pela questão da criatividade artística, mas sim pela questão de acesso aos recursos. Pra ter uma banda de Rock é preciso ter e saber tocar guitarra, baixo, bateria, entre outros instrumentos. Nesses outros estilos, as vezes basta ter e saber manusear um computador (coisa que todo músico precisa hoje em dia).

O Rock sempre será grande, mas acho natural que tenha perdido espaço. A juventude já não ouve Rock como antigamente e manter essa grandiosidade nas próximas gerações, em termos de público, será uma dura tarefa.

Assim, o Rock, cada vez mais, vai se aconchegando no mercado underground. O mercado brasileiro não é diferente. Já toquei em muitas bandas de Rock, tenho a minha experiência com o mercado e sei que, apesar de haver uma quantidade absurda de gente que gosta de ouvir Rock, apesar do sem número de bandas produzindo discos, os shows e eventos estão cada vez mais vazios. Será que o público está carente de uma onda no Rock e por isso não sai de casa para ir aos shows? Será que falta organização? O que é que falta pro circuito do Rock ter mais autonomia?

Pay to play

Uma prática comum do cenário underground do Rock. O famoso pagar para tocar. Isso se torna possível porque existe muita gente querendo tocar, mas não existe público para consumir esses shows. Sabendo disso, donos de casas e produtores se aproveitam para organizar shows onde é preciso vender uma cota de ingressos, garantindo o lucro da casa e dos contratantes. Muitas vezes, a banda nem sequer ganha um percentual sobre a venda desses ingressos. Eu mesmo já fui vítima desse sistema e decidi que não faria mais parte dele.

O problema não é vender ingresso. O problema é a inversão de valores e de papéis. Enquanto em outros estilos as bandas ganham seu cachê e os contratantes lucram sem tanta preocupação com o público – porque sabem que haverá movimento – no Rock, nesse sistema pay to play, as bandas, além de atuarem como promoters do evento, acabam não ganhando nem como artista e nem como promoters. Isso quando a banda não consegue vender a cota acertada e tem de tirar dinheiro do próprio bolso. Daí o termo pay to play. Mas isso só acontece por falta de…

Organização

Se existe tanta banda e tanta gente que ouve Rock, então porque é que não existe um cenário decente?

Quero ressaltar aqui que, por ter feito parte da cena, também assumo a culpa desses problemas. Se existisse um movimento de colaboração das bandas, seria possível não depender de casas e produtores. O problema aí é que esbarramos em outro obstáculo: o estrelismo.

Já participei de festivais onde não precisei vender ingresso e sentia que era decente ajudar a coisa acontecer divulgando, levando público e, o mais importante, prestigiando as outras bandas. Apesar disso, muitos artistas tocavam e, além de não levar público, simplesmente iam embora após suas apresentações, sem ao menos se importar em fazer contatos com os outros artistas. Sempre me pareceu que essas pessoas, só por estarem com uma guitarra pendurada no pescoço, achavam ser rockstars. Isso porque muitos desses “músicos” nem se preocupavam com a…

Qualidade do trabalho

Já vi de tudo. Banda que tocava com instrumentos desafinados, cantores desafinados, arranjos mal acabados… muitos não entendem que é preciso enxergar música como profissão mas, além disso, enxergar o Rock como música. Muita gente está mais preocupada com a foto da banda no Facebook do que com os riffs de guitarra, com os arranjos.

Não estou dizendo que promover não é importante, e nem que uma banda iniciante é obrigada a tocar como uma banda de gravadora. Mas é preciso que se crie uma consciência da importância da qualidade de seus trabalhos. Sem essa consciência, por mais que o público não entenda tecnicamente de música, não é difícil distinguir o que é bem feito do que não é. E não é questão de gosto, é questão de cuidado mesmo. De dedicação, esmero. Isso tudo prejudica a assiduidade do público. Ajustando esses pontos, é possível que as bandas realmente sejam…

Bandas Independentes

Na verdade, sempre condenei esse rótulo. Parece que essas bandas não dependem de ninguém e talvez isso só contribua para a mentalidade de estrelismo. Eu prefiro dizer que as bandas são muito dependentes. Dependentes das outras bandas, de um cenário solidário, do público, enfim… Todo apoio é bem-vindo. A banda independente de verdade é a banda que tem uma gravadora. Essa banda se preocupa somente em criar, gravar e tocar. Tem um produtor que posiciona a banda no mercado e ajuda nos arranjos, tem um empresário que fecha shows, a gravadora cuida da produção e distribuição do disco. Ou seja, a banda pode se preocupar exclusivamente em tocar e pode canalizar todas as suas energias na música. Só depende do desempenho dela mesma para fazer bons shows.

Mas, com organização, poderia-se alcançar um cenário underground auto-sustentável. Aí sim, acho que o rótulo caberia. Sem precisar almejar grandes gravadoras, rádio e televisão, o trabalho das bandas teria seu espaço e sua audiência. Alcançando tudo isso, quem sabe uma boa parcela dos jovens começasse a ouvir mais Rock. As bandas atuais ganhariam mais espaço e isso ajudaria a derrubar a…

Mentalidade “antiguista”

Se existe uma coisa que atrapalha a manutenção cultural – e me irrita profundamente – é a hipervalorização do ontem. Isso não é exclusividade do Rock, mas existe uma boa parcela de roqueiros que simplesmente não se dão a mínima oportunidade de ouvir uma banda atual e ainda são capazes de bradar chavões como “o rock morreu”, “já não se faz rock como antigamente”, “ah, como era bom na minha época”, e etc… Esse discurso é de uma leviandade tremenda.

Hoje em dia existem bandas para todos os gostos. É muito importante conhecer sim os clássicos – muitas bandas que tocam por aí sequer se preocupam com a bagagem cultural – mas, muitas bandas antigas já nem existem por seus integrantes terem brigado ou morrido. O trabalho é eterno, o ser, não. Já não podemos ver um show dos Beatles ou do Led Zeppelin.

Para que o Rock sobreviva, é preciso dar oportunidade às pessoas que estão fazendo e ainda acreditam no Rock e digo mais: para uma coisa ser realmente significativa para alguém, é preciso que seja vivenciado. Se o Rock não produzir mais movimentos que envolvam as pessoas, o sentimento será só de nostalgia. Aliás, a nostalgia só existe porque essa emoção de estar envolvido, de viver o momento, um dia existiu. A saudade não é do disco e do artista. Temos saudade da emoção.

Não escrevo esse texto esperando ser o guru do cenário do Rock. Na verdade, tenho certeza que muita gente enxerga tudo o que eu escrevi. E muitos podem até discordar. Mas todos concordamos em querer que um dia nossos filhos, netos e bisnetos possam, como nós, gritar: viva o Rock! Então, só para não perder o costume…

Viva o Rock!

O poeta que ninguém lê

escrever-artigos-para-seu-blog
Queria o lanche dos anúncios
A verdade dos jornais
O produto da embalagem
do reclame e do cartaz

Queria o beijo do cinema
Queria um amor como o amor das canções
Queria a banda do disco
E o país das promessas das eleições

Sair nas fotos como estou no espelho
Queria o dia da previsão
Que o medicamento que foi receitado
fosse a solução

Queria ver a poesia
como Vinícius via
como o Chico faz
É triste assinar autoria: Denis de Moraes

Queria o Rio de Janeiro
das praias bonitas e dos carnavais
Queria ter na vida a coragem
que tenho nas redes sociais

Detrás da tela falo sem rodeios
incendeio o debate virtual
Mas viro as costas pro computador
e caio na real

O lanche não é nem de longe o do anúncio
O jornal é sensacionalista
O produto não parece o mesmo
que eu vi na revista

Os amores e os beijos
estão cada vez mais banais
A banda, ao vivo, desafina
E o país anda pra trás

Juro que não sou eu nesta foto
Hoje deveria ter feito calor
O meu remédio é paliativo
Só serve pra enganar a dor

O Rio de Janeiro é um perigo que só
Mas tenho coragem para admitir ser
Um cara um tanto inseguro: O poeta que ninguém lê

Sexo, cristianismo e a crise criativa da arte

O Êxtase de Santa Teresa, de Gian Lorenzo Bernini

Há alguns dias atrás, conversava com meu professor de violão sobre a história da música, do instrumento e de várias outras questões que me deixavam dúvida. Fomos da diferença entre orquestra sinfônica e filarmônica, passamos por Igor Stravinsky até chegarmos na música contemporânea (é. Viajamos!). Eu perguntava a respeito de alguma nova tendência ou corrente artística musical que poderia estar rolando, já que meu professor é concertista e entende bem do mercado da música. Por isso, seria a pessoa ideal pra identificar algo que estivesse a germinar por aí. Mas a resposta dele (e mesmo eu que não tenho uma visão tão ampla, já esperava ouvir isso) foi que hoje em dia não há nada de novidade na linguagem musical. A própria música eletrônica, que talvez tenha sido a última novidade sonora importante, já data de décadas. No máximo, o que existe são experimentalismos, misturando coisas que já existem. Um museu de grandes novidades, como já notava Cazuza.

Isso me fez, é claro, questionar o que é óbvio diante dessa questão. Será que vivemos uma crise criativa na música?

Estudando história da música, lembro-me que o Maxixe, que é um ritmo brasileiro que pegou no final do século XIX e começo do século XX, era mal visto porque sua forma de dançar era considerada indecente. Por conta disso, os compositores escreviam seus Maxixes sob o rótulo de Tango Brasileiro para poderem compor sem serem, de repente, taxados de imorais ou coisa do tipo. Esse tipo de preconceito sempre existiu no mundo da música e, com certeza, em todos os segmentos da arte.

O fato é que esses preconceitos sempre foram vencidos, justamente porque surgiu algo mais revolucionário do que o Maxixe, que, por sua vez, passou a sofrer preconceito até que se tornasse algo normal. O Samba já sofreu isso. O Rock já sofreu isso. Hoje, quem sofre esse mesmo preconceito é o Funk Carioca (a partir de agora, irei me referir ao ritmo só como Funk).

O Funk sofre preconceito, principalmente, pelo conteúdo de suas letras. Não pretendo discutir as qualidades musicais, poéticas e capacidade de revolução artística do Funk neste texto. Entretanto, o conteúdo das letras do Funk é mais um indicador da crise criativa da música.

Na época do Maxixe, a dança insinuava o sexo, mas nas entrelinhas. Hoje, o Funk fala abertamente de sexo sem nenhum pudor.

O sexo é um dos assuntos intocáveis dentro da cultura ocidental, fortemente influenciada pelo cristianismo. Acredito até que seja o assunto mais evitado de todos. No Brasil, cerca de 87% da população se diz cristã. Nos Estados Unidos, algo em torno de 72% a 80%. Se, dentro dessa realidade, o Funk fala de sexo sem o menor medo nem tabu, significa que a igreja não mete medo em mais ninguém há muito tempo. Mas não somente isso. Se somos uma sociedade cristã onde o sexo é veementemente oprimido e, mesmo assim, esta ferida está sendo irritada sem a menor dó,  com a unha do dedo indicador, significa que já não há mais muitos assuntos pra serem explorados artisticamente, que vão causar grande furor no meio artístico e, por consequência, na sociedade. O sexo é um dos últimos assuntos.

Claro, estamos falando da arte massificada, porque não é de hoje que o sexo é retratado na arte. Mas nunca tão abertamente, sem nenhum tipo de eufemismo e com um alcance tão grande, praticamente ignorando o cristianismo, que é responsável por construir os mais sérios valores da sociedade ocidental.

Eis que me peguei percebendo em como, não só na música, mas em todos os segmentos artísticos, existe essa falta de corrente revolucionária. E mais. Na moda, já nem usamos mais roupas. No audiovisual, a última moda tem sido o pornô revenge no Whatsapp e outras mídias sociais, com fotos e vídeos pra quem quiser ver. No teatro, se faz sexo em cena, até mesmo com a plateia. Tudo já chegou no sexo escancarado.

Há quem veja a falta de uma corrente forte e revolucionária como a democratização da arte. Agora todos temos voz e a consequência disso é um mercado segmentado, cheio de gente de vários estilos e várias correntes de pensamento. Pra mim, esse mercado fatiado é formado por correntes que um dia foram revolução, mas que hoje só são nostalgia. Um dia foi revolução. Mais uma vez, o museu de grandes novidades. Já o aspecto negativo da falta de uma corrente revolucionária é a sensação que dá. Sensação de que não há mais grandes revoluções pra acontecerem.

A música – e a arte em geral – veio vagarosamente quebrando o tabu do sexo, desde lá detrás, antes do Maxixe, até passar por, por exemplo, pelo Axé e chegar no escancaramento do Funk. Logo logo, o Funk vai se tornar normal e, imaginando um futuro não tão longínquo, quando isso acontecer, me cutuca a pulga atrás da orelha: será que a arte não nos chocará mais? Será que por isso, perderá seu poder de revolucionar o pensamento e o comportamento humano? Qual será agora o papel da arte?

Eu espero que outras pessoas já tenham se enganado escrevendo textos parecidos com este meu, acreditando, na época do Maxixe e de outras ondas, que já tínhamos feito tudo o que havia pra ser feito. Eu espero, sinceramente, que eu seja só mais um que esteja redondamente enganado. Que apareça alguém e cale a minha boca pra sempre. Alguém que inutilize meu texto e que me faça passar vergonha, pra eu nunca mais ter coragem de escrever texto parecido. Ah, que bom seria se esse alguém fosse eu mesmo!

Pra finalizar, queria dizer que é ótimo podermos falar de sexo, hoje em dia, como a coisa comum e humana que ele é. Sem tabus. Mas, lembre-se: não faz muito tempo, falar de sexo era um grande tabu e isso se refletia claramente no comportamento humano. Isso me fez lembrar dessa publicidade do Itaú que deixo ao final. Já no começo, vemos o casal declarar traços desse comportamento. Quanto tempo você demora, hoje, pra pegar na mão de alguém de quem você está “a fim”?

Sexto sentido

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A frequência que intima sem diligência
seu corpo e sua consciência a reagir

Descompassa as sensações
em boas nuances
Acordadas entre acordes
virão felicidades, lamentos e saudades
descontentamento e paz

Nessa trasmissão que reverbera
no estribo o estribilho
e que altera a percepção
grandemente, talvez
mas, se mínima, já fez
com que seu estado se tornasse ex
pra dar vez
à escassez de escassez de emoção

nenhuma outra viagem lhe supera
do entorpecente ao álcool
Pelo ar, mar ou asfalto

De carisma
toma a cena sem força
e o poder sem fazer sangrar
basta hastear a antena
e sintonizar
Na droga harmônica
Torpe melódico

O tempo afia a gente
pra gente estar afinado
a distinguir, mais consciente
as drogas harmônicas
de drogas que ouço ultimamente
arranjadas, principalmente
pra alcançar notas diferentes
das feitas pra escutar

Se o que ouço não me sana nem me insana
Me aborrece
Eu sintonizo o Strauss pra me livrar do estresse
Pra alcançar altos graus na escala que enaltece

Clichê

Caminho
São tantos carnavais
que já não aguento o carnaval
a páscoa, o réveillon e o natal
É sempre igual
Já “tá” curto, pra piada do pavê
o meu pavio
e “pro” cliché
de todo 1º de abril
Ligo a TV, é Fausto, BBB
crimes, enchentes e o Gugu
Já não vale a pena ver de novo
o filme d’A Lagoa Azul

Reprisar dinheiro na minha conta
ninguém quer
nem chá e nem sopa na minha colher

Eu só vejo repetir, sem cortes, a corrupção
Já vai aumentar a “gasosa” e o “buzão”

O despertador tocando
vão veicular
A veiculação do trânsito, é difícil
A bateria do smartphone já vai acabar
Esquecer o carregador (e os fones)
já virou vício

Queria, já, alguém novo pra sair
não completo álbum
com figurinha repetida

Até o que eu “tô” sonhando
“tá” virando déjà vu
Cigana, a minha mão já está traduzida

Eu queria ver o novo, pra já!
Mudar a programação
pra não ter que repetir, de novo
essa lista de reclamação

Mas cada um é cada um
Cada pessoa é cada pessoa
Hoje é só mais um dia que já enjôa

Raul, Belchior, Elis, Seu Madruga e a hipervalorização do ontem

Não sei se você que me lê já vivenciou alguma situação em que alguém defendia a ideia de que as coisas antigas eram melhores. Acredito que sim, porque é uma situação muito comum. Tudo bem, em certos casos, é bem verdade mesmo. O ar em São Paulo era mais puro, o rio Tietê era navegável, menos trânsito, logo, menos stress… realmente, muita coisa era melhor para nós.

Mas, o saudosista, esse ser que põe o passado por sobre o presente, quando leviano demais, não age muito diferente de um racista ou machista, porque, mesmo sem considerar o que é e o que está sendo feito nos tempos atuais, sempre vai achar que tudo no passado foi melhor. A grande diferença do saudosista leviano para o Bolson… ha-ham, machista ou racista, é que pouca gente se ofende com esse ponto de vista que hipervaloriza o ontem. Me parece que há um consenso, uma consciência coletiva, que concorda que o passado realmente foi melhor.

– “Ah, eu deveria ter nascido nos anos 70”.

– “Não se faz mais homem como antigamente”.

– “A música do meu tempo era boa”. A pessoa é tão leviana que não entende que o tempo dela, na verdade, é hoje; é o agora. Apesar de eu entender que, nesse caso, quando dizem “tempo”, estão querendo dizer “juventude”. Mas eu aprendi com o Seu Madruga que “existem jovens de oitenta e tantos anos/ e também velhos de apenas vinte e seis”. A frase “A música do meu tempo era boa” é típica de gente velha de “espírito”. A juventude também é agora.

O que mais me chateia nessa leviandade é a indiferença para com os tempos atuais, porque tanta coisa boa está sendo feita e as pessoas estão usufruindo de muitas dessas coisas. Aí temos que aturar alguém que fala mal da modernidade e exalta o passado num post no facebook enviado de um smartphone. Chega a ser hipócrita.

Mas o mais difícil pra mim é ter que aturar alguém dizer, por exemplo, que o rock, o samba, ou qualquer outro estilo musical, tenha morrido, e que a música esteja uma porcaria, baseado no que se vê na TV e se ouve nas rádios. Desde quando TV e rádio é o parâmetro total das coisas? Isso é o cúmulo da irresponsabilidade, porque existe, não só na música, uma movimentação artística muito maior do que em qualquer outro tempo, porque o acesso à tecnologia e informação contribuiu para o aumento da produção artística em todos os segmentos. Se não fosse a tecnologia, grande parte da produção de notícia e arte feita para internet, como hoje faz o Interferência Urbana, não existiria, independente do tamanho do veículo e da audiência. Esse tipo de pensamento é excludente e só contribui para manter o monopólio das grandes empresas do ramo cultural, artístico e da informação.

Não quero dizer, muito menos impor a ideia, de que os tempos hodiernos são os melhores. A humanidade sempre viveu tempos que mesclaram coisas boas e ruins. E hoje nós também vivemos uma realidade cheia de bons frutos e cheia de desafios para vencermos. Viver e conhecer o hoje é importantíssimo para conceber um bom futuro. Claro, sem conhecer o passado, jamais entenderemos o mundo onde vivemos e é imprescindível conhecer as nossas fundações para construirmos o que virá.

Não quero ir contra a liberdade de expressão e opinião neste texto. A minha preocupação é com a leviandade, que é a causa não só desse saudosismo maléfico, mas de todos os outros tipos de preconceito.

Como bem disse o Belchior na música Como Nossos Pais, que ficou famosa na voz de Elis Regina: “mas é você que ama o passado e que não vê/ que o novo sempre vem”. O mundo não vai parar e ficar do jeito que está hoje. Pode ser difícil engolir isso, mas o novo sempre virá. E ainda bem que vem, porque “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante/ do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”, pra terminar esse texto com um saudosismo saudável.