Você é capaz de pensar por conta própria? Série Provocações – Parte III

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Em um primeiro momento você pode pensar que sim, ou talvez nem tenha parado para pensar a respeito ou nem se importe.

Mas, para mexer com sua curiosidade, provocar sua atenção, faço a pergunta: somos capazes de pensar por conta própria?

Sem rechaçar a indagação como o personagem Zaratustra, do filósofo alemão Nietzsche – que exaltado com seus seguidores, por apenas ouvirem sem refletir sobre suas dissertações, os expulsou para longe de si – vamos conduzir o tema na sua possibilidade de discussão e reflexão, tão somente.

Aos 15 anos, li pela primeira vez o Discurso de Método do filósofo, físico e matemático francês René Descarte, podendo sentir, mesmo que inseguro, a prevalência da mensagem, da forte exortação à busca do conhecimento por meio de uma única palavra: duvide.

Duvide de tudo. Tire a prova de tudo e só acredite em algo após ter eliminado todas as dúvidas possíveis.

O livro é uma delícia de leitura e nele Descartes, entre as diversas explicações, faz-nos entender o processo de construção do pensamento, que usaremos como plano de fundo deste texto.

Quando nascemos, a sociedade já está “pronta” com seus valores, seus princípios morais e éticos e nossos pais são os primeiros a nos influenciar, por meio da transmissão desses princípios na nossa educação.

Esses princípios geralmente estão associados a alguma religião, portanto, podemos notar que nosso pensamento já começa a criar uma forma seguindo essas orientações transmitidas pelos nossos pais, que por si aprenderam na religião.

E por último os professores, responsáveis por transmitir o conhecimento das ciências gerais e incentivar nosso desenvolvimento cultural, são também participantes ativos – as vezes nocivos – da formação do nosso pensamento.

Claro, temos exceções, como toda regra, e alguns tem mais contatos com os professores, outros os pais nem são religiosos, porém, não se pode negar a existência desse costume e inclusive a ordem como somos educados.

Portanto, dessa rede de influências externas a nós, quando chegamos à idade adulta, não pensamos por conta própria. Reproduzimos os pensamentos transmitidos por nossos pais, por ensinamentos apreendidos nos cultos religiosos e nos casos mais raros, pelo conhecimento adquirido na escola, por professores.

Dessa “educação” desdobram-se algumas concepções, que nos mostram porque as pessoas têm comportamentos preconceituosos, conservadores, outras já são “modernas”, radicais ou não estão nem aí com nada.

Fato é: não paramos para pensar sobre o nosso (próprio) pensamento.

Somos conduzidos pela ilusão da abiogênese do pensamento e não perscrutamos a origem deste; seguimos recalcitrantes “como ovelhas ao matadouro”, como se pensar fosse um atentado à paz de espírito, algo irrelevante e despropositado, como a própria constatação da “geração espontânea” do pensamento.

É lamentável, mas como disse William Shakespeare “toda situação por mais frágil que pareça sempre tem dois lados”, ou seja, essa triste constatação fez que um escritor mineiro produzisse um belíssimo texto, chamado “Lugares Comuns”.

Lugares comuns, de Fernando Sabino, é a percepção da decadência de criatividade, da repetição de expressões conhecidas, que servem de muleta para alcunhas estereotipadas, sem essência, com zero de originalidade.

Talvez você esteja pensando agora: mas é impossível ser isento de uma influência, a gente tem que seguir algo, acreditar em algo. Não tiro sua razão.

E para não ser controverso, uso meu próprio texto como exemplo, uma vez que nele cito pouquíssimos dos muitos autores que influenciaram meu pensamento, que hoje me fizeram pensar o que estou escrevendo a vocês agora.

Não posso ser conivente em aceitar que ser original, pensar por si, é impossível.

Existe sim uma possibilidade, sendo ela tão somente uma mudança de comportamento: sair da zona de conforto, ter atitude.

Não é fácil abrir mãos de princípios, de “verdades prontas” que nos foram ensinadas por nossos pais, por pessoas que nos amam, mas que se pensarmos, as vezes nem conhecem a proveniência do que transmitiram e, por inocência, afeição, creem dar-nos o que há de melhor apreendidos por eles.

Duvidar, experimentar, buscar compreender porque pensamos como pensamos, porque acreditamos como acreditamos pode não ser uma decisão simples, mas nem por isso deve ser descartada.

Nem por isso também devemos ter atitudes extremistas, sermos incrédulos ou no pior dos casos, arrogantes.

Clarice Lispector tem um comentário que contrapõe brilhantemente essa lógica cartesiana da dúvida: “entender não tem limites”, em contraposição que “entender é limitado”, ou seja, uma vez entendido, acabou. Não tem mais graça.

O que chamo sua atenção é para compreender: sentir o quanto você é influenciado e o quanto você tem de oportunidade para explorar sua originalidade.

Esse texto é o último dos outros dois anteriores (Parte I e Parte II) da Série Provocações, que busca de modo similar ao Convite à Filosofia, da filosofa e historiadora brasileira Marilena Chauí, convidar vocês para refletir.

Com autoconhecimento, descobrimos a origem das nossas crenças, dos nossos pensamentos e mesmo que notemos influências externas, sabemos distingui-las e reconhecemos nossa própria essência, nossa originalidade.

Espero que você tenha gostado e se tiver sugestões para abordamos, fique à vontade para escrevê-las nos comentários.

Obrigado!

Conheça o “vazio” que há dentro de você – Série Provocações – Parte I

O silêncio que antecede o caos é o natural vazio das coisas, é o olhar mais sensibilizado da essência. É a própria essência.

E o que é a essa “coisa”? A “coisa” dita aqui é entendida na perspectiva do filósofo francês Émile Durkheim, como um “fato social”, o acontecimento do dia a dia. O caos? É o ruído, o movimento das massas humanas, o seu andar, o seu caminhar, o seu pensar. É todo o verbo na sua mais simples significação. Mas, o que quero dizer com isso? O silêncio que antecede nossos hábitos de vida, nossa rotina, é o vazio natural que existe na sociedade, em nós?

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Somos o “fato social”, o agente do caos (como diria o personagem Coringa, do Batman), responsáveis por tornar as “coisas” reais, no modo de percebemos essa realidade que vivemos.

E quando vamos explorar o vazio, analisá-lo com mais atenção, nos assombramos. Tipo, rola uma inquietação, um certo vazio interior, que chega mexer com nosso emocional. Alguns sentem frustração.

Mas, o vazio não é ruim, é natural, é vislumbrante!

Imagine: você chega a sua casa, se coloca em um lugar sozinho, com a luz apagada, fecha os olhos, sem celular, sem som, sem nada. Qual é a sensação? Parece loucura, tem gente que não aguenta 5 minutos. Que agonia dá ficar só, em silêncio.

Usando o conceito geral do filme Matrix (pode ser qualquer um da trilogia), estamos sempre conectados. Sempre ligados, escrevendo no WhatsApp, curtindo ou compartilhando no Facebook, postando uma foto no Instagram (exemplos).

Não dedicamos um mínimo de tempo para o silêncio, para estar com nosso interior, ausente de todas as coisas externas.

Já percebeu isso? Agimos como se fôssemos um grande bebê medroso e carente. Não podemos ficar sós. Temos medo de nós mesmos. Não procuramos ter autoconhecimento: saber quem somos e ainda mais, saber quem é o outro (fora da realidade virtual).

Outro grande estudioso, psicólogo grego, chamado Viktor D. Salis, em uma das suas explicações do Processo de Formação do Homem Grego na Antiguidade, diria que para se tornar “homem”, isto é, uma pessoa íntegra, consciente de si, é necessário fazer dois  mergulhos: um dentro de si e depois um dentro do outro.

Este mergulho é outra forma de explicar a célebre citação “conhece-te a ti mesmo”. Ou seja, se eu me conheço, sei o que penso, de onde vem esse pensamento, ninguém vai me enganar, me iludir. E também saberei o que tenho de bom, o que tenho de ruim na minha natureza, quais são meus limites, se tenho limites.

Imagine ter consciência disso. Diga-me, seu modo de ver o mundo, de olhar o outro, de pensar no outro, não seria diferente? Você poderia ter mais segurança em si. Não sentiria medo. Sentir-se-ia mais “dono” do seu destino, das suas escolhas. Com isto, penso que estaríamos mais preparados para viver em sociedade. Posso estar errado, você pode discordar e ter suas razões. Se quiser compartilhar, estamos aqui para dialogar.

Para encerrar, só tenho a dizer que isso tudo é muito louco!

Então, pare com esse medo de si. Desconecte-se da Matrix um pouco. Você conhecerá um vazio que bem pensado, não é vazio (parece contraditório, mas não é), pois esse vazio é o todo, somos parte do todo, estamos conectados ao universo (não só ao universo virtual). Como no filme Avatar, lembra-se? Você está ligado a tudo.

Saia do casulo, levante essa bunda do sofá em frente à TV, da cadeira frente ao computador, da cabeça abaixada para o celular.

Vamos viver de verdade?!

Não deixe

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Imagem: freepik.com

Imagine
Que essa é sua única oportunidade
Seu último abraço
Seu último beijo
O último olhar
O último sentir

Imagine…
Não ver mais o brilho do sol ou a claridade da lua
Não sentir mais o vento tocar-lhe a pele, agitar-lhe o cabelo
Que não verá mais aquele sorriso que tanto lhe agrada
Não dará mais aquela risada solta e descontraída
Não se divertirá com a bagunça das crianças
Com o calor da pessoa que ama
Com os amigos que encontra

Imagine
Sua última caminhada
Sua última corrida
Sua última lágrima
Seu último sorriso
Seu último grito

Imagine e veja o que você seria capaz de fazer para viver cada instante desse e tantos outros com toda a intensidade, com toda a pulsação da vida que lhe bate no peito e está aí, presente em você, em nós.

Agora, pare de imaginar e viva. Viva agora!

Obrigado

Gratidão

Por: Dolores da Silva

Acordei com aquela alegria despreocupada
Feliz por respirar.

Não sei nada do amanhã
Menos ainda das verdades inverossímeis.
Só agradeço a oportunidade
Que pode ser (ou não) a única.
Não importa.
Se um dia o pássaro não voltar,
A árvore não der mais fruto.
Estou certo que um dia ele voou
E que já comi fruto saboroso.

Houve espinhos, mas o que dizer das rosas.

Obrigado!

Adeus à saudade

saudade

Por: Dolores da Silva

O que o passado amou
Seria melhor que o presente?
E por que haveria de ser,
Se cada momento é um instante.

O instante é como mosaico
Junta-se um punhado e cria-se algo novo
A vida é algo novo (quase) sempre.

Viver é parecido com fotografias
Os olhos são movimentados pelas imagens
E as imagens movimentam os pensamentos
Que por si movem a descoberta de novas sensações.

Sensações são como descobrir:
É tirar o cobertor dos olhos e ver.

E ver é aproveitar o instante
Seja ele no passado ou no presente
Mas, que se viva mais o momento
E que seja ele o mais intenso de tudo.

Fim

noite
Por: Dolores da Silva

Só as paredes sozinhas, e eu.
Ele chegava tarde todas as noites
E todos os dias eram estranhos
Aqueles momentos de espera
As horas vazias, arrastando-me
Enquanto esperava … Só… Estar.
Corria à geladeira
Com o cigarro queimando entre os dedos
Acendia meu ânimo com goles
De uma cerveja amarga,
Que aquecia-me o apetite
Para mais uma noite
Que veria a porta se abrir
E o vulto ganhar forma
Mas, de repente era madrugada
E quando a luz clareou
Já estava escuro demais
E não vi… Era muito tarde!

Até mais, Antônio Abujamra

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Arte: Shirley de Paula

Uma voz
Um sorriso
Um rosto sério
Provocativo

Provocações
As emoções
Que agora sinto
Desalento e desalinho

São tão poucos
E tão escondidos
São tão grandes
E jamais esquecidos

É vida que anda
Antônio Abujamra
Que saudade deixa
Nessa triste terça-feira

Panelaço, coxinhas, manifestações e suas contradições

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A miscelânea continua. Conta-se com a presença de celebridades, os saudosistas do período militar, os revoltados contra a corrupção, os exaltados contra o partido do PT, além dos afoitos comentários de caráter malevolente e desrespeitosos à “pessoa” da Presidenta Dilma Roussef e ao ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva.

São compreensíveis as reivindicações e sou consoante para com algumas. São manifestações genuínas, contrárias aos procedimentos adotados pelo atual governo, tendo em vista os diversos escândalos envolvendo membros que compõem a máquina do estado. Falcatruas, roubos, planos de ações inviáveis… quem gosta disso?!

Mas, por outro lado, sinto as contradições discursivas que se apoiam na insatisfação popular: celebridades que se auto promovem com a roupagem “do povo”, quando estão apenas preocupadas em manter o que têm. Os pedidos de intervenção militar, aparentemente esquecidos da realidade de quem viveu ou soube postumamente a respeito dos efeitos da ditadura, onde ninguém teria a possibilidade de se mostrar partidário a qualquer interesse. Dos corruptos membros do PT – a especificidade partidária é salientada devido ao contexto atual e por ser comprobatória – desconsiderando o lençol de corrupção que cobre nosso país desde sua formação – como se em algum momento houvera um partido incorruptível. E aprofundando um pouco mais, na singularidade cotidiana dos “pequenos” atos: na hora de “molhar” as mãos do guarda de trânsito para evitar uma multa, do “passar o pano” para o amigo no trabalho, do desviar da blitz após ter “tomado umas”, “furando” a fila… a lista é grande. E mais absurdo ainda é chamar uma pessoa de “vaca”, de “cachaceiro”, “burro”, entre outros adjetivos torpes, é totalmente incoerente ao discurso de quem pede moralidade na política e não tem atitude cívica e educação básica.

Quando a lei 4.330 (terceirização dos serviços) foi aprovada, não vi uma única celebridade, um único participante que esteve na abertura da Copa do Mundo – mostrando o quanto somos “pobres” ao xingar nossa chefe de Estado, ao invés de agir com maturidade politizada – não vimos nenhum dos grupos como o “vou pra rua”, “revoltados online”, “movimento Brasil livre” e outros mais se manifestarem CONTRA a aprovação desta…
A lista de deputados está cheia de assinaturas do PMDB, PSDB (aos “aecianos” encurralados entre as avalanches de indignações e o maniqueísmo midiático falsamente solidário aos cidadãos mais empobrecidos financeiramente, leiam a lista e vejam os partidos e nomes dos aprovadores dessa lei) e notem que ninguém está preocupado em promover condições favoráveis e possibilidades de ascensão dos menos favorecidos. Essas contravenções são partidárias, têm objetivos controversos ao apoio (e apelo) popular.
Não seja massa de manobra. Pense! Analise! E não se deixe enganar: quem tem, mais quer ter; quem não tem, nem sabe o que é ter.
Precisamos de reforma política e não de colarinhos brancos no poder (como já tivemos).

Terceirização da Câmara dos Deputados! Aprovado!

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A terceirização garante mão de obra especializada, custo baixo, responsabilidade indireta, entre outros benefícios, como maior abertura para disputa de prestação de serviço. Perfeito, não é?!

Então, vamos pedir a promulgação de uma nova lei que terceirize a Câmara dos Deputados e com isso garantiremos: especialistas na criação de leis, com objetivo de alcançar resultados que sejam benéficos para o bem da sociedade, salários baixos que contribuirão na redução da despesa orçamentária do Estado (considerando a crise financeira que estamos passando), maior dedicação e força de trabalho no desenvolvimento e criação de leis, e uma concorrência acirrada dos interessados em prestar serviço à sociedade, ganhado pouco e trabalhando muito. Com isso, o preconceito existente entre as classes trabalhadoras deixa de existir, pois todos lutam arduamente em busca de um bem maior, sendo útil e prestando um excelente serviço (especializado)… Se algo der errado, a responsabilidade é indireta, não precisa ter preocupação, há respaldo jurídico, ninguém será condenado injustamente. É lindíssimo!

Além, claro, que se houver algum protesto contra essa terceirização, a polícia estará preparada para inibir qualquer movimento contrário a esse bem social, a essa perspicácia evolutiva das leis trabalhistas, de forma efetiva e contundente, típica do militarismo, que alguns saudosistas sentem tanta ausência nesse período desorientado que vivemos. Ordem e progresso! Viva o positivismo! Viva a evolução! Os Excelentíssimos Deputados aprovam! #sqn.

Poema do avesso

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Por: Dolores da Silva

Em uma vida tão cheia de alegria
Nada poderia existir de melhor
Do que viver com teu cheiro de acre ao lado

É como olhar para um monte de excremento
E ver-te como uma velha mosca morta.
Tudo é tão estranho nos teus movimentos
Que tua pessoa parece nem ser humana

Mas, pouco importa
O importante é mesmo o amor, não é!?
Que não tenho para comigo ao estar do teu lado

E olha, ainda avisaram-me: – “não faz isso”
Teimoso e abençoado fiz e muito bem feito
O imenso favor de enfiar minha vida no “cumeço”
De uma atormentada existência de visões desagradáveis

Tua presença
Jogada ao canto às traças, tão ridícula
Essa é minha maior prova de amor
Um brinde à insanidade