A explicação da onda de calor mundial

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É inegável que o calor está aumentando a cada dia, mesmo em estações que deveriam ser frias. Existe uma explicação lógica e racional para isso, a parte ruim é que dificilmente esse quadro se reverterá.

Com o aumento do número de pecadores e consequentemente suas mortes, o Inferno acabou ficando pequeno. Sabemos que ele fica no Centro da Terra e por isso são necessárias obras de expansão contínua, para que caibam mais pessoas (almas, espíritos ou qualquer denominação de sua religião).

Com essa expansão, aumenta-se o número de vulcões e terremotos, para que a rocha derretida (também conhecida como Lava) possa vir para a superfície.

Oras, se o Inferno aumenta, a camada que o separa do lado externo do planeta fica menor e por isso, todo o calor da Terra do Capiroto vai criar uma pressão nas “paredes” que separam esse mundo, aquecendo o solo externo e assim aumentando o calor.

Simplificando o raciocínio, O inferno está aumentando e o calor está transcendendo para o plano terreno.

Um presente gay para o Dia dos Pais

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Horário de almoço é um belo convite para fones de ouvido. Me cansa ver o papo dos outros, ainda mais hoje em que todos são “politizados” e “coerentes”. Confesso que nem sempre estou ouvindo música quando estou com fones, é só mais um artefato para não dar conversa para os outros.

Em meio amenidades, geralmente respeitam seu fone, mas outras vezes alguém que te interrompe para perguntar as horas ou comentar sobre o tempo, naquele mesmo esquema. São Paulo é doidão, hora tá frio, hora tá calor.

Dessa vez o assunto era outro. Presente do “Dia dos Pais”. Legal ver que o tempo passa e as pessoas ainda se prendem nisso. Entre um jogo de tabuleiro, um Iphone, uma caixa de charutos cubanos e até mesmo uma parcela da prestação do carro, alguém comenta que vai dar um Spa Day.

Cara, meio mundo achando errado, que era obrigação e não presente e uma porrada de coisa, nem a menina que daria o “jogo de meias da Dorinhos” foi tão atacada. Nisso, batem no meu braço e perguntam o que eu acho.

– Acho de que? – pergunto, me fazendo de desentendido. Após a explicação, eu respondo: – O pai, o dinheiro e o gosto são deles, ele dá o que achar melhor.

Essa foi a deixa para me perguntarem o que daria para meu pai. Curto na resposta, disse: – Vou dar uma cesta ou arranjo de flores. Foi um emaranhado de “que gay”, “presentinho sem vergonha”, “isso é para o dia das mães”, “tá chamando seu pai de viadinho”, entre outras coisas desse naipe. Ela, mais nova no bando e não passando de seus 20 e poucos me – pergunta: – Você não acha esse presente muito feminino para seu pai? – Respondo: – Acho. Mas minha mãe disse que fica bem bonito em cima do túmulo dele. Silêncio total e sei que não falarão de presentes comigo até o próximo ano (pelo menos).

Uma outra chance

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Sr. Mariano, 68 anos, casado e mecânico. Natural de Quixeramobim no Ceará. Sorriso sempre disponível e uma sutileza ímpar, daquelas que a cidade grande não conseguiu converter.

Papeando enquanto ele mexe no carro, descobri um pouco de sua vida e fiquei pensando como ela não é fácil para a maioria das pessoas.

Ele veio para São Paulo aos 18 anos, fugindo da miséria e deixando uma esposa grávida na cidade, com a promessa de que ganharia dinheiro por aqui e a traria em seguida.

Começou trabalhar numa mecânica, era assistente. Ganhava pouco, mas era muito mais que sua vida na roça. Além do trabalho oficial, fazia bicos e em poucos meses era bem requisitado, já tinha deixado de ser assistente e era uma espécie de mecânico “júnior” na oficina. Sr. Alberto, o proprietário, gostava muito do rapaz e o ajudou na compra de um terreno ao lado da oficina. O terreno era dele, que disse que o funcionário poderia ir pagando, descontando do salário, mas só depois que ele construísse sua casa e trouxesse sua esposa e filha (que ele nem chegou conhecer e agora já estava com 10 meses de nascida). Casa humilde, dois “combodu” e um banheiro no lado de fora, mas já dava para estar com sua família. Iria passar o aniversário de um ano com sua filha.

Passagens compradas, esposa e filha vindo para São Paulo e um acidente em Minas Gerais tirou a vida das duas. O mundo de Mariano caiu, com menos de 20 anos parecia que tudo desabara em sua frente. Ele viu as coisas que mais amava irem-se. O pouco dinheiro fez com que as duas fossem enterradas em Minas Gerais. Ele não pode se despedir da esposa, que agora tinha 17 anos e de sua filha, que nem chegou a conhecer.

Com as duas afastadas, ele caiu na bebida, perdeu a vontade de viver e relaxou no trabalho. Ele se achou culpado da morte das duas, afinal, se ele não tivesse vindo para cá, elas não teriam morrido. O Sr. Alberto ficou triste, mas procurava ajudá-lo. Tudo estava de mal a pior, até 1968, quando a mãe do Sr. Alberto ficou doente e ele teria que viajar para Minas Gerais para cuidar dela. Ele chamou Mariano e disse: “Filho, preciso de você agora. Nunca te pedi nada e sempre te ajudei, peço que me ajude nessa hora. Se você abandonar nosso trabalho, quando eu voltar estaremos os dois perdidos” e assim saiu, sem resposta alguma. Esse foi o choque de Mariano, que largou a bebida nesse dia e começou trabalhar certo. A dor era imensa, mas ele resolveu seguir.

Sr. Alberto retornou um mês depois. Tinha perdido alguns clientes, mas a oficina ainda existia e Mariano estava numa aparência melhor. Descobrira então que a mãe de Sr. Alberto havia falecido e ele também chegou triste, mas com uma proposta. Montarem uma nova oficina, com o nome “Marias do Céu” em homenagem a dona Maria de Lurdes (mãe do Sr. Alberto), Maria Clara e Maria de Fátima (esposa e filha de Mariano, respectivamente), dando 50% para cada.

Mariano disse que não tinha dinheiro para isso, mas mesmo assim, Sr. Alberto disse que ele poderia pagar assim que terminasse de pagar o terreno.

Após isso, 20 anos ainda se passaram, até que o seu “pai”, Sr. Alberto, faleceu, trabalhando até três dias antes da morte. Ele sempre o inspirou. Poucos dias antes de passar mal disse que considerava o Sr. Mariano como um filho e só então ele descobriu que Sr. Alberto também perdeu um filho, no parto da esposa, que também faleceu. Jovem, tinha vindo para São Paulo ganhar a vida, se casou aqui, com uma moça paulista e prendada, foi feliz por um ano e meio, perdeu sua família, os familiares da esposa o culpavam pela morte e todos viraram as costas para ele. Ele não teve uma mão amiga quando precisou e na verdade, era só uma mão que ele precisava. Essa mão que ele não teve, foi a mesma mão que ele ofereceu para Mariano, que só então começou entender sua vida.

Sr. Alberto apagou esposa e filho da memória, nunca mais se casou e morreu sem deixar herdeiros. A única pessoa em seu leito de morte era Mariano. No velório alguns amigos de bar e clientes, lá se ia a única pessoa que Mariano confiava. A vida pregando peças.

Era uma tarde de domingo, Mariano comprou um maço de cigarro, bebeu mais uma vez e foi para casa. Pensou em voltar para sua cidade, pensou em se matar, pensou em largar tudo, mas a dor e o cansaço o venceu e ele acabou adormecendo.

Na segunda ele acordou, não abriu a oficina, pensava no que fazer. Fumou o último cigarro, de um maço que era do Sr. Alberto, amassou a embalagem de Bellmont e jogou num canto qualquer. Levantou, pegou ônibus e foi parar no centro de São Paulo. Sem rumo, lá estava ele na Rua dos Andradas, andando. Viu prostituas menores, gente no lixo, pessoas perdidas e tanta gente em situações muito piores. Percebeu que não tinha dinheiro no bolso, alguns trocados e a embalagem de cigarro amassada, que ele achava que tinha jogado na casa. Dentro, um bilhete sem data, velho, escrito com a letra de Sr. Alberto “eu respondo por minha vida, sempre serei mais forte”. Provavelmente escrita em algum período de sua vida e deve ter acompanhado diversos maços em sua vida.

Parou numa birosca da cidade, comeu um salgado, tomou um café, comprou outro maço de cigarro e voltou para a oficina.

Demorou uns cinco dias para abrir de novo, mas abriu renovado, com novo nome, foto do Sr. Alberto e até hoje funciona no mesmo lugar. Na parede um quadro com um maço de cigarro amassado, outro com o bilhete original e a frase “gênio não precisa de diploma” e uma placa de mármore com a mesma frase do bilhete.

As “Marias do Céu” agora tinham a companhia do Sr. Alberto em um pequeno altar de lembranças e “Outra Chance” era o lema da oficina.

Hoje o Sr. Mariano já está um pouco mais velho, tem uma esposa e adotou três filhos já grandes, que não conseguiam pais por causa da idade. Ajuda um orfanato e faz diversas campanhas e oficinas gratuitas para pessoas de baixa renda.

É um exemplo de vida. Saí com o carro arrumado (ele diz que ninguém volta pelo mesmo problema e os novos são indicação pelo bom trabalho) e extremamente rico com a história que ele contou enquanto trabalhava. Não obstante, ele solta. Faz uns 25 anos que isso deixou de ser trabalho para ser minha diversão.

Trovões e mais trovões

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Por: Eron Rodrigues Alves

A chuva se agitava gritando seus pesares, estava no centro dela seguindo seu rumo e permitindo sua clareza.
Senti cada gota como se fosse etérea. Um abraço molhado no meio do vendaval.

A cada relâmpago, sua luz trazia pensamentos diferentes, sobre o que passou e o que está por vir, amargo como afeto.
Entrei em uma rua estreita, com latões de lixo esparramados e odor forte de decomposição, na placa da esquina havia os dizeres “Sentimento”, era o nome da rua e por incrível que pareça ainda estava em Saudade.

Adentrando um pouco mais, as luzes dos postes começaram a ser menos frequentes, algumas com falhas e outras quebradas, criando formas distintas nas sombras combinadas com as luzes dos relâmpagos. No meio de algumas caixas estava um homem tentando se abrigar, fugindo da chuva tão peculiar. Notei que pertencia a um dos grupos extremistas criados pela cultura local, mas não consegui distinguir a cor de suas roupas para determinar qual. Em outras andanças descobri que alguns grupos eram mais preconceituosos com outros e esse nível transformou suas atitudes em agressividade em prol do extermínio ou isolamento de algum grupo contra seus ideais. Isso incluía incolores, aqueles rebeldes que não escolhiam algum grupo de cor para fazer parte ou estrangeiros como eu, o que sempre me deixou apreensivo nessas andanças sem rumo.

Quando ele me notou deu um pulo como se houvesse me reconhecido. Aproximei de seu abrigo improvisado e disse – Bela noite para aproveitar a chuva.
Com o rosto impassível apenas me olhou e resmungou:

– Essa chuva não é nada, é preciso muito mais para lavar a alma de Saudade. Após terminar se aconchegou mais entre as caixas e fitou o céu. – Isso só traz desgraça e mais desgraça, os corações famintos atraídos para esse lugar não aproveitam coisas pequenas como o som da chuva. Falo por mim e muitos que caminham por aí. Você, como eu, procura a chuva como um banho de seus sentimentos impuros, mas antes do final dessa rua você procurará abrigo – continuou, agora mudando sua calma para agressividade.

Não concordei e continuei para chegar ao fim da rua, ele continuou falando mas não consegui identificar palavras junto ao som dos trovões. Andei mais um pouco e avistei algumas caixas e um cansaço arrepiou minhas costas. Mesmo contra a vontade e o orgulho após o monólogo do homem me sentei e me abriguei com elas, nada parecia tão quente ou reconfortante quanto aquelas caixas.

Texto de Natal

Por: Renato Sirqueira

Me lembro que no fim dos anos 70 fui morar em Jandira, uma cidade da Região Oeste de São Paulo. Foi lá que eu conheci a dona Rosália, mãe de meu coleguinha de infância Natan.

Dona Rosália era uma grande mulher. Não escrevia e nem lia, passava os dias em oração e a noite ia para o culto em uma igreja pequena, as igrejas evangélicas não tinha sido alçadas ao estrelato e nem tinham grandes programas na TV. Eram espaços para pessoas bem vestidas frequentar, mesmo que não tivessem água em casa, o terno impecável e o vestido engomado era obrigatório para as noites de culto, sejam para as crianças, sejam para os adultos.

Me lembro com saudosismo dessa época. Não existia adolescente. Éramos crianças e simplesmente nos tornávamos adultos, independentemente de idade. Foi nessa época, ou melhor, no comecinho dos anos 80 que passei a brincar com seu filho. Eu não era criança bem vista naquele início de década. Para a Dona Rosália eu era uma criança “do mundo” (se ela estiver viva, vai descobrir que ainda sou) e eu me sentia uma espécie de Jesus entre as outras crianças, pois o que mais se ouvia era “com o Renato não se brinca” (entendo sua infância, Jesus). Mas Natan gostava de mim.

Gostava de criar estórias, tinha algumas revistas Mad e Mafalda que meu tio Théo deixava em casa (Sim, fui alfabetizado com Mafalda) e como não sabia ler, inventava os diálogos. Queria muito aprender a ler, fato que eu consegui antes de entrar na primeira série. Já tinha a leitura básica no primeiro dia de aula, mas enfim, vamos voltar ao assunto da Dona Rosália.

O primeiro choque que tive (e boa parte das pessoas do bairro também) em relação a Dona Rosália, foi justamente graças ao seu filho Natan, que caiu na minha primeira sala de aula (saudades da professora Lázara).

Como eu disse no início, Rosália era uma mulher religiosa e desde cedo tem-se notícia de que foi assim. Filha de pais religiosos, cresceu no sertão brasileiro acreditando que não carecia estudar, bastava ser uma esposa prendada, que soubesse as artimanhas da cozinha e do tear para que arrumasse um varão religioso, trabalhador e que conseguiria sustentar sua prole.

Não era de muitas posses e tampouco de sonhos, sua única vaidade era o sonho de morar em São Paulo, cidade grande, terra de oportunidades e um estado que seria bem conduzido pelo governador recém eleito Paulo Salim Maluf. O Presidente era João Figueiredo e a linha dura militar estava no auge. Sim, Dona Rosália era contra “aquele monte de comunista ateu que come carne humana e quer transformar o Brasil num Cubão” como ela dizia.

Tudo mudou com seu casamento com o Sr. Geraldo. Um grande homem, religioso e cheio de sonhos. Trabalhador das grandes obras de expansão que teve a oportunidade de vir para São Paulo trabalhar. Dona Rosália estava encantada, as profecias do Pastor Natanael estavam acontecendo, se casara com um grande homem, honesto e trabalhador e agora iria viver em São Paulo. Para abençoar, só se ficasse grávida. Mas ela queria que seu filho nascesse em terras paulistas.

Malas prontas, o casal parte para São Paulo. Uma vida feliz, pobre de posses, mas ricos em felicidades. Um casal que não tinha estudo, não liam e nem escreviam, mas tinham um amor invejável e pouco visto nos dias de hoje, que aumentou ainda mais com a notícia da gravidez em casa. Era uma época em que não existia ultrassom e só sabíamos que era menino ou menina no nascimento. Foi um momento mágico no bairro (segundo contam, pois eu só comecei a brincar com seu filho em meados de 1981).

Era um belo menino, um varão de tamanho regular, nascido de parto normal pelas mãos de minha avó, que era parteira em Barueri e se deslocou até lá para mais esse serviço. Livre dos impuros, em sua casa, com seu marido, no estado de São Paulo e agora com seu filho. Nada podia estragar a sua felicidade. Agora que seu filho tinha nascido, acharam de bom tom registrá-lo com um nome em homenagem ao Pastor Natanael. Assim vinha ao mundo NATAN, meu amiguinho de infância e o primogênito. E assim se fez. Registrado em Jandira, Natan era o sonho realizado de sua mãe.

E os sete anos seguintes foram assim. Tudo mudou apenas no primeiro dia de aula, quando Natan não estava no local apropriado da chamada, mas sim três nomes após o meu. Quem diria? Como assim?

Os pais (sem leitura) não atentaram para um grande detalhe na hora do registro. O escrivão se atrapalhou e datilografou um S no lugar de N. Natan na verdade se chamava Satan.

Olha só como o mundo dá voltas, a senhora pura e de costumes religiosos que serviu a Deus com tamanha devoção, era a verdadeira mãe de Satan.

Mais um dia em um bar qualquer

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Aquela garrafa de Jack Daniel’s estava sendo a minha melhor companhia naquela noite fria, salvo que ao fundo ouvia Sarah Vaughan cantando Sometimes I’m Happy em uma velha Jukebox. Talvez fosse minha quarta ou quinta ficha da sequência que tinha Jackson Five, Manhattans, Michael Jackson, Johnny Cash, entre outros.
Às vezes eu fico feliz, assim como Sarah, não era esse dia. Eu estava ali, pensando na vida, nas coisas que tinham acontecido, em como os andamentos da banda que toco estavam, as mudanças em minha vida e como as novas oportunidades de trabalho estavam acontecendo. Muita coisa ao mesmo tempo e percebendo que estava envolto só na química da música e eu, enquanto o jovem Michael Jackson cantava Music and Me na mesma Jukebox (que insisto em chamar de Junkye Box).
Sorvia cada gota de meu copo. – Hey, campeão, mais três pedras de gelo, por favor!, sim, um pouco de gelo para esquentar meu ânimo. Continuava ali, perdido em pensamentos e olhando as pessoas que passavam por mim. Jovens, velhos, homens e mulheres, todos em busca de alguma coisa, todos querendo algo mais. Olhar raso, vazio, petulante e desdém. Um mix de personalidades perdidas naquele velho bar, escondido da correria do Centro, frequentado por poucos, mas só por quem sabia o que queria. Acho válido citar que essa ideia de fazer pubs escondidos, sem anúncios e/ou placas de identificação, bem legal. São Paulo é realmente cosmopolita.
Enfim, não tinha sido um dos melhores dias, por isso, achei de bom tom fechar o valor da garrafa, assim como um táxi para voltar para casa. Tudo pago, não tinha com o que me preocupar.
Reparo nos movimentos alheios. Um velho com uma garota que poderia ser sua neta, mas ela estava com ar de pegada. Duas garotas que se beijavam, um casal conversando enquanto a moça passava seus dedos na borda de um copo com Martini e lá no fundo estava ela, sozinha, com ar de perdida e olhos que olhavam o nada. Senti que ela precisava de alguém, de um toque ou qualquer pessoa que ficasse ao seu lado e dissesse coisas que ela precisava ouvir.
Minha garrafa estava no fim. O último gole do velho Jack acabava de descer por minha garganta, me levantei, arrumei o terno e parti em sua direção. Marvin Gaye cantava Let’s Get It On na “Junkye Box” e talvez isso tenha me dado coragem de chegar perto daquela linda garota, de cabelos pretos, olhos de esfinge, lábios vermelhos como o mais puro dos sangues e pele tão linda quanto o sorriso que ela esboçou quando percebeu que eu chegava em sua direção. Para mim não era fácil isso, fora dos padrões de beleza, qualquer ameaça de contato poderia soar como um Ogro aproveitador. Mas a recepção foi bem diferente do que eu imaginava.
Sim, confesso, a bebida e a música colaboraram para minha atitude. Geralmente não abordo as pessoas e minha timidez já me impediu de ficar com muita gente legal. Mas era diferente, eu sentia a necessidade de uma abordagem, eu sentia que era necessário puxar assunto e sentia que precisava dizer o que pensava. O que eu perderia? Era quase hora de ir embora, qualquer reação negativa seria o suficiente para eu sair e viajar 45 km até minha cidade. Então, como disse o Marvin “Vamos botar para quebrar”.
Vi que seu rosto dizia “sim, fale comigo” e me lembrei que nunca tive “xaveco”. Bom, eu não tinha o que dizer, então procurei ser o mais simples possível e tentar uma clássica abordagem. Cheguei ao seu lado, pedi licença para sentar, olhei em seus olhos e perguntei:
– Olá, doce garota. Por ventura seria teu pai algum estilista?
– Não, por quê? – Me pergunta com um sorriso faceiro.
– Percebi. – respondo e completo – Porque esse seu ton sour ton está tão démodé, tão outdated… Ah, e essa sua saia drapeada é o ó!
Me levantei, fiz a egípcia e sai em seguida, sem ao menos olhar para trás.